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Criança apresenta sintomas de intoxicação pela lama da Samarco

13/03/2018

Além de Sofya (3 anos) estudo comprovou alterações nos níveis de níquel e arsênio em 11 moradores de Barra Longa

Escrito por: Leonardo Fernandes / Brasil de Fato

Sofya tinha apenas dez meses quando houve o rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da empresa Samarco, em Minas Gerais, no dia 5 de novembro de 2015. A família da criança vive em Barra Longa, município de 5.720 habitantes, o segundo a ser atingido pela lama tóxica com rejeito de mineração.

A mãe, Simone Silva, conta que desde a tragédia, a menina começou a apresentar sintomas de intoxicação. “Logo que a lama chegou em Barra Longa ela começou a ter diarreia e umas manchas pelo corpo. Levei ela ao médico [pela primeira vez] no dia 18 de novembro [2015] e voltei no dia 29. E daí até hoje. Já são dois anos e meio tratando com vários médicos”, relata a mãe.

Segundo Simone, o problema teria se agravado quando, em maio de 2016, a prefeitura decidiu utilizar a lama retirada da parte baixa da cidade, para o calçamento de ruas da parte alta, onde ela mora até hoje. “Em Barra Longa, onde a lama não foi eles levaram. E a gente costuma dizer que em Barra Longa a lama sobe o morro. E foi quando piorou o problema de Sofya”, lamenta.

A mãe de Sofya carrega a cópia de um documento no qual pediu que a empresa Samarco suspendesse a colocação de rejeito em forma de blocos de calçamento em sua rua. Na época, a empresa afirmou que “as medidas realizadas pela Samarco seguem diferentes critérios que foram estabelecidos em acordos judiciais entre o Ministério Público e a comissão que representa as pessoas impactadas”. A empresa ainda se comprometeu a avaliar o caso e tomar as medidas cabíveis, no entanto, o calçamento com a lama contaminada foi concluído.

Nesta segunda-feira, mãe e filha estiveram no Hospital das Clínicas de São Paulo para a realização de novos exames, depois que um estudo do Instituto Saúde e Sustentabilidade, em parceria com a organização ambiental Greenpeace, comprovou um alto nível do metal níquel e uma quantidade anormal de arsênio no organismo de 11 moradores da cidade de Barra Longa, entre os quais, Sofya, de apenas três anos. O estudo em 217 páginas, foi concluído no ano passado e divulgado recentemente (leia a íntegra abaixo).

As amostras de sangue foram coletadas no dia 28 de março de 2017 em pessoas com idade entre 2 e 92 anos, que já haviam apresentado problemas de saúde similares após o desastre, em 2015. Em dez das 11 análises, foi constatado o aumento da presença de níquel no sangue. Além disso, três pessoas apresentaram um aumento de arsênio acima da normalidade. Na segunda-feira, a menina Sofya refez os exames, que confirmam a intoxicação.

Segundo Camila Brito, militante do Movimento de Atingidos por Barragens (Mab), o caso de Sofya e dos outros dez moradores de Barra Longa incluídos na pesquisa evidenciam a grave realidade da saúde pública dos moradores que, ao longo de toda a bacia do Rio Doce, convivem com o rejeito de mineração. Dezenas de outros casos foram documentados pelo Mab em outros municípios atingidos.

“Conseguimos provar nessas 11 amostras, mas em toda a bacia existe o problema. E não existe um exame, não tem um plano de investigações sobre a relação entre as doenças que estão sendo desencadeadas a partir do crime que ocorreu há dois anos e quatro meses. Não existe um plano, um projeto de estudo da bacia que leve em conta a saúde dos atingidos e atingidas”.

Brito defende que seja construído um plano para atenção à saúde dos atingidos, a partir do diálogo com a população e os movimentos sociais “A primeira coisa é entender que a saúde é um direito humano, que está sendo violado na bacia [do Rio Doce]. Para nós, isso [o estudo] é a prova das provas de algo enorme que está acontecendo, que é a contaminação por conta do rejeito das mineradoras criminosas. E para além desses exames pontuais, que são importantes e nesse momento ganha uma relevância pra nós, deve ser feito um plano muito maior a longo prazo”.

O Mab defende ainda que que o Estado se faça presente na elaboração de um plano de atenção ao longo da bacia do Rio Doce e que haja responsabilização das empresas que causaram a tragédia. 

Evidências da contaminação

O relatório Avaliação dos riscos em saúde da população em Barra Longa/MG afetada pelo desastre do Instituto Saúde e Sustentabilidade em parceria com o Greenpeace analisou amostras de sangue de moradores do município de Barra Longa (MG) que apresentaram sintomas relacionados a problemas neurológicos, respiratórios, osteoarticulares, gástricos, dermatológicos e de ordem geral após o rompimento da barragem.

A Fundação Renova, criada pelas empresas Samarco, BHP Billiton e Vale para ‘gerir e executar medidas previstas nos programas socioeconômicos e socioambientais, incluindo a promoção de assistência social aos impactados’, afirmou em nota que “a Fundação está em permanente contato com a organização responsável pelo estudo e com a Secretaria Municipal de Saúde e assegura que quaisquer danos à saúde da população que tenham relação comprovada com o rompimento serão considerados e tratados no processo de reparação dos referidos impactos”.

Ainda no comunicado, a Fundação Renova coloca em dúvida o estudo realizado e a relação causal entre os resultados da pesquisa e o rompimento da barragem de Fundão; e afirma que “segue monitorando a qualidade do ar no município. Os resultados atuais estão dentro dos parâmetros exigidos pela legislação brasileira”.

Embora o relatório não identifique a relação causal entre os casos de pessoas doentes e o rompimento da barragem, as análises, associadas aos diversos casos já mapeados por pesquisadores e por movimentos sociais, são um forte indício de contaminação da população. O documento recomenda às autoridades a implementação imediata de um estudo de Biomonitoramento Humano (BH), que nada mais é do que o acompanhamento periódico de uma substância química em uma determinada população. Além disso, o estudo alerta para urgência na assistência às pessoas que já apresentam evidências da intoxicação. 

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