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Pandemia, extinção de fundações, violência doméstica e alimentação

Escrito po: Mara Feltes

28/04/2020

Neste pequeno artigo quero compartilhar algumas reflexões que observo neste período de pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

UM – O momento de pandemia é vivenciado por uma geração que porventura tinha ouvido falar em peste nos livros de história, que no último período mergulhava nos “prazeres” do Eu, das vantagens do individualismo, da competição, da irrelevância de preocupações com o meio ambiente, com o politicamente correto, com a importância de sistemas públicos de saúde e laboratórios públicos, com o papel das instituições de financiamentos públicos, com a importância da educação e dos pesquisadores e das pesquisadas.

No último período, a narrativa era o retorno da capacidade do “Deus mercado” de tudo resolver e a necessidade da retirada do Estado no processo de desenvolvimento dos Países. Essa narrativa foi abandonada? Evidente que não. Os capitalistas, a direita conservadora, os banqueiros, estão buscando potencializar sua agenda de retirada de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.

Entretanto, aqui quero salientar que alguns aspectos dessa narrativa estão desmoronando. É reconfortante ouvir que o Brasil está conseguindo enfrentar a pandemia porque temos o SUS. Ver os mesmos que até há pouco faziam inúmeros esforços para destruir nosso sistema público de saúde, tendo de admitir que nossos laboratórios públicos, como o Fiocruz, estão sendo determinantes no combate à pandemia.

O reconhecimento dos/as trabalhadores/as do sistema de saúde e dos saberes dos pesquisadores das universidades públicas na busca de vacinas, medicamentos e elaboração de dados estatísticos para contribuir tecnicamente na elaboração de mapas, que possibilitem as autoridades de saúde definirem as estratégias de combate à pandemia.

Neste cenário nos cabe fortalecer estes aspectos que estão ficando corroídos frente a fatos concretos. Teremos dados, acontecimentos que reforçam nossa narrativa do quanto à importância do Sistema Único de Saúde e seus trabalhadores e das universidades públicas. Enfim, acredito que recebemos combustível e armas para seguir em frente na nossa luta.

DOIS – Seguindo a reflexão acima, podemos voltar ao RS, a dezembro de 2016, quando o governo do MDB de Sartori extinguiu fundações, que poderiam cumprir papel determinante no combate à pandemia, como a FEPPS, um laboratório público que poderia estar à frente na elaboração de testes para o Estado.

A partir dos esforços e da luta feita pelos sindicatos e respectivos jurídicos, conseguimos assegurar a permanência dos trabalhadores e das trabalhadoras da FEE, que a partir do DEE tem realizado cálculos e mapas que tem ajudado o Governo do Estado a definir estratégias.

Com certeza, muito mais poderia estar sendo feito se essas fundações não estivessem sido extintas. E tudo em nome da narrativa que temos de minimizar o papel do Estado. Conseguimos impedir algumas iniciativas que estão prontas para serem resgatadas. Repito: acredito que estamos mais fortalecidos na nossa luta para impedir a destruição dos serviços públicos.

TRÊS – A violência doméstica tem crescido de forma assustadora. Na verdade, está desnudando o que nós, feministas, temos denunciado de forma exaustiva que a violência contra a mulher é uma questão cultural. O machismo e a dominação do homem sobre a mulher são culturalmente construídos.

Será que depois de tudo que está acontecendo, onde mulheres são estupradas e agredidas por seus companheiros, assim como crianças estão sendo violadas e espancadas, ainda é necessário desenhar a importância da ideologia de gênero nas escolas? Sim, porque acreditamos que o que é culturalmente construído leva gerações para ser desconstituído. Defendemos que somente através da educação será possível superar tanta violência.

QUATRO – Agora quero abordar a pandemia em si. Temos poucas informações sore o coronavírus. Que se propaga com grande velocidade, que é frágil uma vez que água e sabão é suficiente para eliminá-lo. Que os sintomas são variados: tosse, febre, dor de cabeça, dores musculares intensas, diarreia, dor de garganta e falta de ar na fase mais aguda.

Evidente que nem todos os sintomas necessariamente se manifestam. Por isso, alguns e algumas ousam chamá-lo de “gripezinha” e tem ainda quem contrai o vírus e nada se manifesta, os chamados assintomáticos. Este último grupo é, segundo as pesquisas, os responsáveis pela disseminação. É a partir desta constatação que os testes são tão importantes.

E temos os chamados grupo de risco: pessoas acima de 60 anos, com doenças auto imunes, câncer, diabéticos e cardíacos, entre outras. Não tem medicação definida. Cada pessoa contaminada pelo vírus é tratada de acordo com os sintomas. Casos mais graves precisam de ir às UTIs e usar respiradores. Alguns conseguem e outros tantos não.

O que pode explicar pessoas com mais de 80 anos superarem o vírus e termos uma média de mortes entre 45 e 55 anos, e inclusive crianças? Pois eu tenho uma teoria que quero socializar para que em conjunto possamos refletir. Já é afirmado que a imunidade é uma potente arma para o enfrentamento do vírus.

Acredito que a resistência maior ou menor está diretamente ligada à alimentação. Sabemos que a ânsia dos capitalistas, do agronegócio, tem imposto uma alimentação cada vez mais pobre de minerais e vitaminas. Os pacotes que invadem nossos armários estão com conservantes e corantes.

As carnes vermelhas, frangos e os peixes todos são de alguma contaminados pela alimentação que recebem ou pelas águas onde procriam. Enfim, tudo em nome do lucro, mas com a justificativa “que devemos alimentar a população” não importando a qualidade destes alimentos.

Se associarmos a pobreza de nutrientes presentes nas nossas refeições ao estresse que as metas abusivas impostas pelos donos do capital e o ritmo da produção, conseguimos compor um mosaico que pode ajudar porque um vírus tão primitivo conseguiu “furar” nossa imunidade de forma tão avassaladora.

Então, será que não está na hora de ter um outro olhar sobre a agricultura familiar e a agroecologia, começando por mudar nosso olhar? Ver a importância da alimentação saudável. Será que se estivéssemos consumindo alimentos saudáveis nossa imunidade não estaria melhor?

É necessário transmutar a narrativa que os produtos orgânicos são CAROS. Serão mesmo? Quanto custa nossa saúde? Quem ganha com uma alimentação pobre em nutrientes, que gera obesidade e com ela uma série de enfermidades? São reflexões necessárias.

Enfim, acredito que refletir sobre o que estamos enfrentando, bem como a certeza que nada será como antes, é determinante para seguirmos na luta e na construção de uma sociedade justa, fraterna, democrática e realmente solidária.

*Mara Feltes é secretária nacional adjunta da Mulher Trabalhadora da CUT e diretora da Contracs-CUT 

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